Exposição lembra o artista Fulvio Pennacchi – e um casamento que deu o que falar
Orlando Margarido
Mario Rodrigues![]() | Acervo família Fulvio Pennacchi![]() |
| Filomena Pennacchi: mansão, móveis e afrescos realizados pelo marido, com sua contribuição (à dir.) | |
Em 1945, um romance rendeu um bom falatório na sociedade paulistana. De um lado estava a primogênita de um dos clãs mais conhecidos da elite de industriais de origem italiana. Do outro, um pintor vindo da Itália dezesseis anos antes, refinado nas maneiras e na sua arte mas pobre. "As pessoas chegaram a fazer apostas sobre se o casamento sairia ou não", lembra Filomena Maria Dall'Aste Brandolini Matarazzo Pennacchi, 87 anos, uma das cinco com o nome predileto da família, entre elas a prima Filomena Matarazzo Suplicy. Naquele ano, ela se casou numa cerimônia discreta com o artista imigrante Fulvio Pennacchi (1905-1992) na capela de um tio, não sem alguma restrição do pai, o conde Attilio Matarazzo. Em pouco tempo, no entanto, o talentoso jovem seria acolhido pelos ricos compatriotas locais, a exemplo dos Lunardelli e Pucci, graças à habilidade na pintura de afrescos. Foram mais de cinqüenta encomendas, entre residências, hotéis e igrejas, a maioria na capital. Os estudos para esses afrescos integram a retrospectiva de 300 trabalhos de Pennacchi que a Pinacoteca do Estado inaugura no próximo sábado (13).
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| Afresco em prédio da Avenida Cásper Líbero: domínio da técnica |
É uma rara oportunidade de ver reunida a produção múltipla e peculiar de um dos principais nomes do Grupo Santa Helena, a turma de pintores de São Paulo que Pennacchi integrou a partir de 1935, levado pelo amigo Francisco Rebolo. Diferentemente de alguns colegas de ateliê como Volpi, de origem humilde e sem instrução formal, Pennacchi chegou ao país com um diploma de curso superior de belas-artes na mala. Para ganhar a vida, foi dono de açougue, sócio de uma empresa de cartazes publicitários e professor no Colégio Dante Alighieri – quando conheceria Filomena, depois de dar aulas a sua irmã caçula – até surgirem as primeiras oportunidades de pintar afrescos, técnica que dominava como poucos. "Pennacchi tem a maior produção desse tipo em metragem no país", atesta o marchand James Lisboa. "Por isso mesmo, seus trabalhos de cavalete e esculturas se tornaram menos conhecidos e um tanto injustiçados no valor." Entre um desenho, uma cerâmica e um óleo sobre tela, suportes também representados na exposição, o preço de uma obra do artista pode variar de 10.000 a 140.000 reais.
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| Cerâmica de festa junina (à esq.) e tela O Circo (à dir.): Pennacchi era um dos poucos com formação superior entre os pintores do Grupo Santa Helena | |
Muitas das formidáveis realizações do pintor só podem ser contempladas em edifícios públicos – católico praticante, é dele o impressionante conjunto da Igreja Nossa Senhora da Paz, no Glicério – ou negociadas junto com os poucos imóveis particulares que ainda resguardam sua arte. É o caso da mansão do arquiteto Miguel Forte, na esquina da Avenida Brasil com a Rua Argentina, recentemente ocupada pelo escritório de uma incorporadora. Uma rápida espiada de fora já revela a beleza do afresco Cavalgada Medieval, de 1944. Mas seu maior xodó ficou em família, na residência projetada, decorada e mobiliada por ele três anos depois no coração do Jardim Europa, onde ainda hoje mora a viúva. Filomena Pennacchi, que ajudou o marido em algumas pinturas da casa, acabou abandonando a vocação artística por um motivo muito forte: criar os oito filhos do casal.
Rômulo Fialdini![]() | Acervo Jorge Yunes/Lew Parrella![]() |
| Auto-retrato de 1951: dono de açougue, sócio de uma empresa de cartazes publicitários e professor |
Opinião dos leitores
Fulvio Pennacchi
A reportagem faz justiça ao grande artista que foi Pennacchi ("A dama e o pintor", 10 de maio). Entretanto, faltou mencionar sua obra-prima: os afrescos do Hotel Toriba, em Campos do Jordão, em especial o que retrata os bandeirantes, na sala de chá. Além de magníficos, eles são primorosamente mantidos pela proprietária do hotel, o que é um exemplo a ser seguido.
Marco Antonio Fanucchi
Belíssima a reportagem. Nós, moradores de Ribeirão Pires, nos sentimos orgulhosos de ter um verdadeiro tesouro de Fúlvio Pennacchi. É um afresco de 1954, que retrata a Sagrada Família e fica na Matriz de São José.
José Vicente de Abreu
Vereador
Gostaria de agradecer ao repórter Orlando Margarido a excelente e inédita reportagem e por fazer com que o universo e a obra do artista Fúlvio Pennacchi chegassem aos leitores.
Giovanna Pennacchi
LINK / revista vejinha 2006 materia integral e cartas dos leitores







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